

Sobre o projeto
Da Violência: Fanon
Projeto inédito da Taanteatro Companhia, fundada em 1991 em São Paulo, que aborda formas de violência contemporânea e histórica na perspectiva de uma dança decolonial, antirracista e inclusiva, impulsionada pela crítica político-filosófica e revolucionária de FRANTZ FANON, médico, escritor e militante-ícone do movimento africano e afrodiaspórico da descolonização. Segundo a filósofa e feminista afro-americana Angela Davis, Fanon é “o mais poderoso teórico
do racismo e do colonialismo do século XX.”
FANON Militância & Atualidade
Nascido na Martinica, em 1925, e falecido, prematuramente, em 1961, nos Estados Unidos, Fanon desenvolveu sua obra ativista entre 1951 e 1961, na esteira da agenda política articulada pelo 5o Congresso Pan-Africano (Manchester, Inglaterra, 1945): condenação do imperialismo, da discriminação racial e do capitalismo & defesa da descolonização da África e do Caribe.
Veterano da Segunda Guerra Mundial, Fanon propõe uma guerra de libertação (nacionalista, mas em cooperação internacional) em busca da criação de uma nova realidade, de um novo homem1. A realidade dessa África que está por vir, dotada de soberania absoluta, seria alcançada através da luta política ou da luta armada, isto é, por meio da violência organizada - exercida pelo povo colonizado, visando a explosão da violenta realidade colonial burguesa e capitalista, mas também por meio da superação do feudalismo e da religiosidade africanos tradicionais.
Em concordância com Angela Davis, Cornel West, autor de Questão de Raça, considera Frantz Fanon não somente o maior intelectual revolucionário da metade do século XX, mas também o mais atual para o século XXI.
Corpo & Dança em FANON
Além de sua comprovada atualidade política para os debates sobre colonialismo, racismo e a autonomia dos povos, a obra de Fanon favorece e desafia sua abordagem coreográfica por, ao mesmo tempo, ressaltar o papel chave do corpo para o complexo colonial e criticar a dança como prática antirrevolucionária.
Em Os Condenados da Terra, seu último livro, Fanon descreve o corpo negro como campo de combate entre as forças antagônicas da colonização e da descolonização. Diagnostica nos corpos dos colonizados um estado de tensão permanente imposto por valores e políticas de colonização ocidentais; uma hipertensão incessante frequentemente liberada em atos de autodestruição coletiva e individual.
Respiração, tônus muscular, fluxo sanguíneo, batida cardíaca, funcionamento cerebral, a veemência analítico-poética de Fanon esboça, junto à anamnese dos distúrbios psicossomáticos dos corpos colonizados, uma coreografia do poder manifesta tanto nos protocolos disciplinares da dominação colonial quanto nas suspensões e imobilizações dos dominados em seus sonhos musculares.
O ceticismo de Fanon com relação ao círculo da dança sugeria que o estudo do mundo colonial deve forçosamente buscar compreender o fenômeno da dança e do transe.
Não para consagrar o catarse dançante, mas em sentido crítico e em função do potencial contrarrevolucionário da dança que, segundo Fanon, canaliza a agressividade mais aguda e a violência mais imediata do colonizado para um permissivo plano libidinoso e extático assegurando, ultimamente, a estabilidade do mundo colonial. Fanon se opunha à orgia muscular da dança e ao relaxamento do colonizado por motivos de luta anticolonial.
Corpo hipertenso & TAANTEATRO
O diagnóstico do corpo como lugar de tensão permanente, constitui o lugar de entrada privilegiado para a investigação coreográfica da Taanteatro Companhia, notabilizada por sua metodologia taanteatro (ou teatro coreográfico de tensões). Uma tensão incessante, ao mesmo tempo carnal, cinética, conceitual e civilizatória, experienciada por um corpo transformado em território de polarizações dilacerantes, condenado à reprodução do complexo colonial mas também capaz de destruir o mundo colonial e de libertar e recriar o ser humano. Será a partir desse potencial corporal duplo - destruição e criação - que a Taanteatro Companhia também irá questionar o veredito fanoniano negativo acerca das capacidades revolucionárias da dança.
Em Pele Negra, Máscaras Brancas, Fanon observa a existência de "dois campos: o branco e o negro” encerrados no círculo vicioso do colonialismo. Levar seu irmão, seja negro, seja branco, adiante na compreensão do contexto colonial e de sua violência em estado puro para, por fim, destruí-lo, é seu declarado objetivo.
Nesta perspectiva transformativa, Da Violência: Fanon dá continuidade à três linhas de pesquisa da Taanteatro Companhia explorados anteriormente em projetos e espetáculos como DAN devir ancestral (2009), Androgyne - sagração do Fogo (2013), cARTAUDgrafia (2015), Mensagens de Moçambique (2018), [dez]colonizações (2019) e Chissano - Rito para Mabungulane (2021).
A equipe transcultural e multiétnica do novo projeto da Taanteatro Companhia conta com a colaboração de artistas afro- e euro-descendentes, refugiados e migrantes afrodiaspóricos. A coreografia de Da Violência: Fanon será assinada por Mabalane Jorge Ndlozy, dançarino profissional moçambicano, radicado no Brasil sob a condição de refugiado. A curadoria visual do projeto será do artista visual e grafiteiro paulistano Thiago Consp. A dramaturgia e a direção do projeto será de Wolfgang Pannek, diretor da Taanteato Companhia. A supervisão artística do projeto estará a cargo da diretora-fundadora da companhia, a coreógrafa Maura Baiocchi. O elenco do espetáculo conta com Mônica Bernardes, integrante da Companhia, integrantes selecionados do NUTAAN 2025 e artistas convidados.
1 Grada Kilomba critica nos livros de Fanon “um erro fatal”: a ausência e inexistência da mulher negra como sujeito ontológico. Ver Grada Kilomba: Fanon, Existência, Ausência, prefácio para Frantz Fanon. Pele Negra, Máscaras Brancas. São Paulo, UBU, 2021. p. 15.

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