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12/05/2025 _ por Feuer Meireles


VIVÊNCIA EM RELATO #2

12.05.2025, Feuer Meireles






Cheguei, mais uma vez atrasada. Não como da última vez que me descrevi aqui, mas

alguns minutos ainda fazem diferença pra mim. E mesmo com a autocobrança, não me

dou o “luxo” de me sentir mal com o fato. Estamos na Funarte, espaço que

começamos a ocupar no começo do mês. É gostoso estar lá, me retoma os tempos do

curso de teatro. Primeira vez também estando lá. Me acomodo logo percebendo que

talvez vamos esperar mais dois companheiros do progresso. Solto algo pra Jan, Jorge e

ela riem e ela ri com uma tensão que me chama atenção - é a primeira vez que vejo ela

rir de fato, talvez seja isso. Depois de um tempo, ela compartilha uma percepção de

mim diante a última aula que me deixa comovida. Acredito que o dia estaria propicio a

receber opiniões e pensares sobre meu ser, mas vejo que o que me faltava era um

olhar de alguém que talvez não imaginasse estar sendo vista de fato, mesmo que

naquele dia ela estava na minha frente, bem rente ou próxima ao alvo da flecha. Estou

feliz.


O pessoal conversa, os orientadores conversam e, olha! Mônica! Fico contente ao ver

ela, genuinamente. Aparentemente acho que acham que é pelo PIX que, perto do final

do mês, ela distribui para a gente, mas não. Sou recebida com abraços e beijos dela,

de tal forma que o afeto nunca foi sentido por alguém tão novo em vida, tão breve em

vida. Me sinto acolhida, querida. Querida. Somos um grupo formado majoritariamente

por mulheres e, eu, a única trans. Depois de alguns meses parece que o cuidado e

percepção diante os movimentos dos outros é mais minucioso pois as trocas parecem

mais transparentes ou precisas. Não sei ainda como descrever, mas está ligado a

forma como lidamos com essas experiencias coletivas e suas finalidades.


Todos conversam, decido comer o segundo chocolate de três que comprei na

promoção. Estou esperando por algo. Acho que a aula vai começar sem eles. E hoje

são sobre os mandalas pictográficos, uma apresentação junto da roda de conversa

sobre percepções. Me encontrava animada pra isso; mostrar um pouco de mim, tentar

explicar um pouco de mim. Foi uma sensação. “The Marya” começa, e ela fala umas

coisas que me deixa embasbacada de tanta informação. Como algumas coisas que

parecem simples podem ser complexas, muito mais, para outras pessoas. E não

dizendo que o dela estava simples, mas é uma forma de identificar como a visão de

quem olha e a visão de quem faz sempre vai ser diferente. Eu gostei, tá? Não tô me

justificando.


Mas enfim, apresento o meu. Mais uma vez acho que eu não expliquei da forma que

acho que era preciso explicar. Eu me ponho num complexo por não conseguir algo que,

em minha imaginação, parece tão básico - do tipo: “fácil, eu consigo!”. E dei meu

melhor. E o que eu escutei foi uma devolutiva forte, potente, necessária e motivadora.

Novamente me sinto vista, e isso é tão bom.


Chego à conclusão que talvez viver sentada não é ideal, mas é intrigante como as

trocas elas deixam não só o ambiente, mas a sentada mais pesada. Perdi a introdução

de Ângela, e juro, de tantas outras, Ângela me atravessa de uma forma que me deixa

sem reação. E dessas outras não digo de nós que ocupamos hoje a Funarte, o

(NU)TAAN Teatro e afins, mas de tantas que tem seus recortes e as lutas diárias que

talvez não identifiquemos o preconceito, o que nos afeta, o que nos contradiz. E a arte,

quando dita arte, aparentemente é a mensagem de que há um pouco de vida naquilo –

ou melhor, tudo. Não conseguimos terminar todas as apresentações dos mandalas

junto da apresentação breve de nossa Tensão, descrita em uma palavra. Mas acho que

a cada aula, mesmo que o passo seja curto, eu vejo que estamos alcançando o maior

ato dentro desse processo.


O dia termina assim: sem bar, com visão, afeto e casa. Tô cansada. Até a próxima.

 
 
 

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Fundada em São Paulo, em 1991, pela coreógrafa brasileira Maura Baiocchi, a Taanteatro Companhia é reconhecida por sua pesquisa teatro-coreográfica continuada denominada taanteatro ou teatro coreográfico de tensões publicada em oito livros, em língua portuguesa, espanhola e inglesa; e por um repertório cênico abrangendo mais de oitenta espetáculos autorais inspirados na vida e obra de artistas plásticos, poetas e filósofos, e focados em temáticas eco-políticas, decoloniais e de gênero. Desde 2021, organiza anualmente o CineFestival Internacional de Ecoperformance. Premiados nos planos municipal, estadual, federal e internacional, os espetáculos da Taanteatro Companhia foram apresentados no Brasil e no exterior (Alemanha, Argentina, Bélgica, EUA, França, Inglaterra, Itália, Japão, Moçambique, Rússia).

 

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