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23/06/2025 _ por Feuer Meireles


VIVÊNCIA EM RELATO #3

JUNHO, 23.06.2025, Feuer Meireles



Eu me machuquei de novo.


E de novo, de fato, eu acho que sou a complicada situação.


Efêmera, incógnita e violenta.


Gostaria que fossem apenas títulos de alguém que só se autoafirma, mas somos responsáveis e culpados de nossas próprias ações.



Nunca se sabe qual vai ser sua próxima ação baseada em algum problema-situação. Se o

seu ego é atravessado, se o seu bem-estar é atravessado, se sua mente, concepção,

princípios são atravessados e você se baseia em um ou mais deles para tomar alguma

atitude (equivocada), a responsabilidade é sua. Agora, o que vem depois talvez seja

consequência, né? De algo que vai e que volta, que sobe, que desce, quanto o mais é

bom e o menos é pouco, nós tomamos decisões. E é delas eu tento não abdicar. Não há

nada melhor do que ser dona da caneta (algumas vezes do lápis) na hora de atuar o seu

roteiro. Mas é lógico que tudo passa. Tudo passa.


Esse mês foi uma prova do limite: do quanto se gasta (dele), do quanto vive se opondo

(com ele), do quanto é (ele) maior que você. Se limitar talvez seja caminho, mas, o ponto

não é esse. Entrei numa fria sem mesmo dizer “Não.”. Fiquei embasbacada quando vi

que eu mesma perdi o controle, sabendo que desde o início eu estava com ele – e nunca

deixei de estar. É louco, as consequências são inúmeras quando não vistas por suas

primeiras vezes, mas cá estamos, repensando como articular, ter o melhor ato diante o

acaso causado. E nisso tudo consigo identificar algumas respostas a enigmas, ícones e

símbolos que me acompanham há um tempo, e isso, surpreendentemente – a mim – se

revela nesse período, diante os processos com NUTAAN. Frantz Fanon quando me

escreveu que “A violência desintoxica”, falada por Deivison Nsoki, me impregna a ponto

de visualizar mais os gestos, os cantos deles e seus inícios. Como isso vem me trazendo

perspectivas de um ciclo vicioso de dor da punição. Algumas vezes pensada que eu

mereço passar por isso, começo um processo de ressignificação - compreender talvez

não fosse a melhor, pois não nascemos assim. Aprendemos desde novos que TODA

AÇÃO TEM SUA CONSEQUENCIA, E SE TODA AÇÃO PODE CAUSAR ALGO, QUANDO

ERRADA, TENDE A SER PUNIDO SEJA DE QUAL MÉTODO, FORMA E INTENÇÃO DESSA

AÇÃO. Mas quando se entende de que pela violência podemos corrigir os erros, me fez pensar muito no que é certo e errado, me fazendo também pensar de que eu sou errada

mais do que certa! - mas isso são eles que dizem, não eu. O que me faz ser mais certa, o

que me faz ser digna a tal posição, o que me faz ser a cidadã de bem, se é que por eles eu

não deveria estar aqui?



Brisas e brisas, e é gostoso as reflexões - em meio a dor. Diante a elas, me transportou

pra uns primeiros lugares que entendi que podia ser punida para ser algo bom a

sociedade: a escola. O lugar que se fomenta o conhecimento abrangente, sobre várias,

mas determinadas coisas. E mesmo que vinda de cima para baixo, como é fundamental

estar na escola. A troca com o outro te transforma, de fato. O sistema de educação diz

que te transforma de fato. O professor talvez possa te transformar, de fato. Mas o que

ninguém vê o que nos transforma de fato é a sala de aula, como somos organizados,

como somos comportados a estar, a quanto tempo isso nos faz entender de que sentar e

apoiar o que temos em cima da MESA é o começo de tudo. Mas o que veio antes? O

quadradinho de 8 ou a mesa? Não acho respostas para isso agora, mas vejo sentido de

elas existirem. E foi aí que entendi o porquê da mesa em meu imaginário, do sentido d’eu

utilizar ela nesse momento de vida.


As mesas são suportes, itens até de se guardar coisas. Lugares que podem ser deixados

no centro, nas periferias, organizadas em fileiras... Seja como for a sua intenção. Mas

trazendo o porquê das mesas, me faz pensar se são apenas para isso. Pois símbolos tão

simples que se vê nas casas, nas escolas, nos trabalhos formais e informais. Tantos

lugares, aparentemente até subjugados a isso. Mas elas são de suporte, elas estão no

início de muitos processos. E tudo está acima dela.


Assim como as cadeiras, o ato de sentar e estudar se remete muito ao âmbito

acadêmico, e não há nada de mais nisso. Mas, e quando nos referimos a violência? O

que está de no entorno disso, nas entrelinhas, nos pequenos cantos?

Do colonialismo vamos aos atos revolucionários.


Ou eu gostaria que fosse, mas os esquemas, os meios, as organizações, as pautas e as

finalidades são inúmeras, e não se sabe como será no após, mesmo sabendo como é

suas primeiras vezes.


Tudo pra mim é muito interligado. Nada tem um laço tão fino quanto o seu tamanho de

importância e no que é relacionado. O motivo de estar aqui, a razão de persistir e o

porquê de lutar pela vida está desde o meu começo, que se dá, de fato, na escola. E

mesmo com as micro violências que nela sempre terá, como as relações afetivas e de

poder também podem ter, mas transformam não só o espaço como a nós mesmos, e por

reconhecer vida após a instituição, eu vejo que o que começa nela, é muito mais fora

dela. Quem teve a sorte de ver as cadeiras amontoadas em prol a sua existência, a coletividade, educação e futuro (melhor)? Quem estava lá E quem não estava? Quem

sofreu AS consequências e quem sofreu as OUTRAS consequências? Mesas e cadeiras

se deram como armaduras além de apoio. Que por elas também sirvam como palco para

quem tem o que falar.


E eu acho que eu tenho, e muito.





Colocar minha corporeidade em cena desse modo será pra mim um outro começo. Um

símbolo. Quem sabe um ícone. Ter essa outra imagem há tempos sobre as mesas em

nossas vidas entendo como potência para entendermos que tudo o que queremos seja

só viver, e mesmo que isso esteja em outras mãos, que a resistência que temos é única,

feroz e capaz. Ancestral. Os novos meios destroem o que já se foi, sem saber como se

teve bem antes daquilo ser o que ela é hoje. E isso tudo só debrucei depois do

descontrole financeiro, depois das ilusões que nós mesmos criamos para nós com base

do que eles criam para nós, depois de perceber que mesmo esse processo na NUTAAN

tenha mexido comigo, percebendo o colonial até ali, como foi resposta para muitas

questões de vida, política e história. Eu quero ainda ter a chance de falar o que aprendi,

vivi e vivo, e tendo a possibilidade nesse processo coletivo ou não, que saibam que me foi

fomentado uma parte de vida significativa através da arte.



Uma mesa para cada canto.


Um ato a cada canto.



Obrigada pelas trocas breves.

 
 
 

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Fundada em São Paulo, em 1991, pela coreógrafa brasileira Maura Baiocchi, a Taanteatro Companhia é reconhecida por sua pesquisa teatro-coreográfica continuada denominada taanteatro ou teatro coreográfico de tensões publicada em oito livros, em língua portuguesa, espanhola e inglesa; e por um repertório cênico abrangendo mais de oitenta espetáculos autorais inspirados na vida e obra de artistas plásticos, poetas e filósofos, e focados em temáticas eco-políticas, decoloniais e de gênero. Desde 2021, organiza anualmente o CineFestival Internacional de Ecoperformance. Premiados nos planos municipal, estadual, federal e internacional, os espetáculos da Taanteatro Companhia foram apresentados no Brasil e no exterior (Alemanha, Argentina, Bélgica, EUA, França, Inglaterra, Itália, Japão, Moçambique, Rússia).

 

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