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31/03/2025 _ por Elisa Canola


São Paulo, 31 de março de 2025

Espaço Viver, Barra Funda


Neste dia, no horário marcado para o ensaio, saio de casa bem pouco tempo

antes dele começar. Venho de um fim de semana entre amigos no litoral. Na volta,

pela serra naquela manhã, avisto um queda d’água imensa diante da montanha.

Enquanto dirijo o carro por entre as curvas da subida da serra, abro as janelas e

ouço a música que ecoa: “Chega de chorar, Você já sofreu demais, agora chega.

Chega de achar que tudo se acabou.Pode a dor uma noite durar Mas um novo dia

sempre vai raiar. E quando menos esperar, clareou...” Ao mesmo tempo que eu

ouço a letra da música, lágrimas escorrem no rosto. O pedido que ecoa dela, ao

choro que me soa, aparece como um conselho vindo na hora errada. Quem ousa

acreditar que um choro precisa ser contido? E se o choro fosse de alegria, afinal?

Por outro lado, após o pedido de cessar choro, logo vem a ideia de que o tempo é

cíclico, de que a noite acaba, o dia chega e acaba mais uma vez, mas quando

menos esperamos clareia de novo e assim sucessivamente...


Não sei bem porque começo falando do que veio antes, no mesmo dia mas

em tempos diferentes. Talvez porque minha ausência no encontro anterior tenha

criado um gap, uma espécie de perda do fio da meada que vinculava meu corpo

com o espaço, com a ambiência, o contexto. Tudo que ao final deste dia veio

refletido nas falas do Wolfgang. Voltemos ao corpo.


Começamos com esforço. Antes disso Jorge me chama para dizer que não se

sente bem, que terá de permanecer em pausa. Eu entendo que um corpo daquele

tamanho precisando parar é porque algo realmente importante acontece. Seguimos

o baile. Janina coloca uma playlist de pop music, tudo em inglês. Seguimos ela em

movimentos marcados, parecem ser passos das danças urbanas. Uma das

nutaantes acompanha lindamente como se fosse sua dupla. Combinado ou não,

movimentos sincronizados, uma coreografia esforçada da cópia em direção ao corpo quente. Esforço dentro. Depois dos dez minutos iniciais parece que o corpo já está

apto a seguir se movimentando sem prazo para acabar. Há esses primeiros minutos

mesmo em que achamos que o esforço é tanto que não daremos conta de continuar.

Depois inverte, quando para já não se quer mais cessar.


Janina finaliza e sugere uma pausa para respirar. Tomamos água e aguardamos voltar. Faremos a Mandala completa? Lembramos de todas as etapas das setes danças, começamos por dormir e acordar? Não, a prática do dia consiste em: zerar completo, arco-flecha-alvo - coração, estados da matéria e mar-ritmo. Wolfgang pergunta sobre o questionário de mitologia pessoal para poder embasar a

improvisação vinda do mar-ritmo. Algumas pessoas manifestam sensações ao lidar

com questões, todas elas ainda em estado embrionário. Seguimos o baile.


Todas as movimentações do dia me demandam esforços extras. Parece que

mesmo com o corpo aquecido ainda assim tem um peso extra do peso que já é extra

no peso que já pesa. Oi?


A primeira parte transcorre bem, respirações alteradas em torno da concentração no estado do corpo e na prática pela prática. A parte mais difícil, como

Wolfgang mesmo relata a partir da interpretação da Maura, criadora do Mandala, é a

dos estados da matéria. Janina conduz com maestria o tempo entre o gasoso, o

líquido, a lama, a pedra e o fogo, cada um com cerca de dez minutos de duração.

Acontece que há uma dificuldade e tanto em diminuir o ritmo e concentrar em

movimentos simples aquilo que se manifesta do topo da cabeça aos dedos dos pés.

Contenção, cuidado, confronto, negociações nas inter e intra tensões dessa penta

musculatura existencial. Performance de um tempo espiralar onde o acontecimento

é radical em direção ao que se precisa comunicar.


Nesta toada, seguimos ao mar-ritmo já com a tensão acumulada de um dia

intenso no campo das imagens e das emoções. O que vem com força é o desejo de

poder e a vontade de abandoná-lo em seguida. Como se quisesse amassar algo

simplesmente pelo prazer que há. Lembrei que nesta estrada que percorri ainda

neste dia senti um prazer enorme em arremessar dois ovos pela janela e vê-los, em

segundos, espatifar. Sensação gostosa do estrago. Sentir esse gosto de poder, de

estar acima, de superioridade, de ter a força como um elemento chave, foi bom

experimentar. Se sentir algoz, sem limites para o sentir mais violento, conquistar e

desdenhar, acarinhar e estapear, golpear e arremessar, descartar. O poder não tem

limites. É só perceber que te habita que ele se desenvolve em um piscar. Sem perceber ele também sabe se manifestar. Terminamos o mandala em silêncio. Meus

movimentos não pediam mais pausa, queriam provocar mais, sem previsão de parar.

Wolfgang dá mais um minuto para acabar.


Após o término, formamos a roda para falarmos sobre os reverbs da prática.

O nome do projeto que compõe o Nutaan é: “Da violência: Fanon”. Uma das

integrantes fala sobre um dos pontos do questionário relacionado às interações

sociais. Wolfgang tece comentários sobre o conceito de identidade e sua posição

quanto à constelação, contexto ou ambiência em que se insere o sujeito para que se

possa fazer uma análise identitária. É preciso cuidado diante da questão, haja vista

que, a partir de exemplos dados por ele, a vítima se transforma em carrasco num

piscar de olhos. Neste sentido, poder e violência são instâncias pouco fixas,

figurando como composições intercambiáveis no contexto do ecossistema/

constelações que ocupam. As hierarquias são mais móveis do que parecem.


No contexto ameríndio, não há identidades fixas mas sim a relação que se

possui entre as partes. As características das relações é que definirão o papel entre

predador e presa, por exemplo. Wolfgang traz o exemplo da prática de falar outras

línguas e, com isso, se transformar em outra pessoa. Fala a partir de sua própria

vivência como migrante residente no Brasil há mais de trinta anos.


Entramos, por algum lapso, na questão da padronização dos movimentos, da

falta de nuances diante da infinidade de possibilidades de movimentação. Afora

exemplos manifestos, o que fica como reflexo é a ideia da surpresa em colocar-se

em desafio, ou seja, o assombro diante de si e do que pode emanar dessa

instabilidade. Uma insistência em deixar-se tentar ir além da fixação do que se sabe

fazer bem, colocar-se vulnerável através da alternância dos estados da matéria, por

exemplo. Deixar-se afetar pela gama de variações intermediárias que estão entre os

extremos ou entre as dicotomias pode fazer emergir movimentos diversos daqueles

que automatizam o movimento. Os estados de alta tensão corporal não precisam ter

correlatos com os estados emocionais.


Terminamos com a frase: “ Uma corda frouxa não ressoa, o afinamento é que

importa”.


A auto estilização é bastante perigosa e a espontaneidade acaba sendo o

“pulo do gato” na bricolagem de dançar.

 
 
 

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Fundada em São Paulo, em 1991, pela coreógrafa brasileira Maura Baiocchi, a Taanteatro Companhia é reconhecida por sua pesquisa teatro-coreográfica continuada denominada taanteatro ou teatro coreográfico de tensões publicada em oito livros, em língua portuguesa, espanhola e inglesa; e por um repertório cênico abrangendo mais de oitenta espetáculos autorais inspirados na vida e obra de artistas plásticos, poetas e filósofos, e focados em temáticas eco-políticas, decoloniais e de gênero. Desde 2021, organiza anualmente o CineFestival Internacional de Ecoperformance. Premiados nos planos municipal, estadual, federal e internacional, os espetáculos da Taanteatro Companhia foram apresentados no Brasil e no exterior (Alemanha, Argentina, Bélgica, EUA, França, Inglaterra, Itália, Japão, Moçambique, Rússia).

 

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